DO BARAÇO DA LEALDADE
Wu Zixu foi primeiro-ministro do Estado de Wu. Certa vez admoestou o rei por força da lealdade que lhe devia e ao povo de Wu.
Irritado, o rei mandou que o decapitassem. Antes de morrer Wu Zixu pediu que colocassem a sua cabeça junto à porta da cidade para assistir à derrocada do Estado de Wu.
Dirão algumas sumidades do estudo do comportamento do homem, que aos dias de hoje são outros os valores que correspondem e integram o vocabulário do relacionamento humano.
Nada de mais errado e enganador. Desde antes de Caim e Abel que o homem predador e fratricida existiu, talvez não profissionalizado nesse canibalismo, mas nem por isso deixando de o praticar, sobretudo pelo desejo de poder e da sedução que o mesmo sempre exerceu sobre os mais fracos de espírito.
De onde se conclui que sempre foi assim. É que a lealdade foi e é um valor ético e moral que se distinguiu sempre por se constituír na excepção, na contra-maré.
Não será na exaustiva citação de exemplos que se faz o elogio da lealdade. A lealdade passa também, como no caso de Wu Zixu, pela admoestação necessária, por ser esse o dever de quem é leal, o que é absolutamente díspar de se ser fiel.
Para mim distingo lealdade de fidelidade. Se a lealdade é nobre sentimento, fidelidade será lealdade amestrada, sem critério, cega, canina de cauda a abanar, quase que contente por ser assim.
Acontece que a vida, as circunstâncias e sobretudo a pequena dimensão de Macau traz provações aos homens e põe à prova os seus alicerces, neste velho entreposto, local de trânsito e comércio por excelência.
Alguns homens são vulneráveis ao seu pequeno mundo, e de súbito este se torna - por miragem vinda da sede de algo ostentar - num reinozinho onde descobrem que podem passar a dar largas à sua verdadeira natureza tacanha e mesquinha, ainda que mascarada por severo e austero aspecto.
Nos seus canteiros, sonhados quintais, se passeiam esses pequenotes, congeminando premeditadas burlazitas que sirvam os seus mesquinhos desígnios, distanciando-se dos que os admoestam, vivendo a ilusão de que a sua ganância passará desapercebida, toldados os sentidos que os impedem de avaliar os outros.
É que poucas coisas são mais ofensivas do que avaliar por baixo a inteligência dos outros, sobretudo quando se descobrem motivos e razões, e estas se revelam tão pequenas, pobres e mesquinhas.
Termos filhos representa incomensurável fonte de ensinamentos, assim estejamos atentos.
O meu, vendo um programa televisivo sobre certo monstro marinho, provavelmente primitivo cetáceo vivendo num lago dos Estados Unidos, ao ver que um especialista explicava que para filmar o dito monstro iria adicionar à câmara mergulhada, uma enorme isca, comentou a propósito da dita, do fundo dos seus treze anos: o homem está tão no centro que acha que os outros animais são estúpidos.
Matéria de reflexão bem lançada – os meus nepotismos são estes, o do orgulho que tenho pelos meus filhos – porque aos treze anos o rapaz sabe não ser o centro do mundo, apenas parte de um todo bem mais extenso do que eu supunha ser o seu conceito do homem e da sua posição na natureza.
Voltemos ao mundo dos adultos, bem menos inocente.
... AO CONTO DO VIGÁRIO
Desconheço se o senhor Vigário alguma vez, por duas moedas tenha vendido um conto. Sei apenas que um vigarista, não raras vezes se apresenta com ar respeitável e, sobretudo, convincente. Até à primeira, como o coxo…
A dimensão de Macau oferece como que a previsibilidade de tudo se saber, quase mesmo antes de acontecer. O que leva a que se recomende boa fé nos negócios, acordos, sociedades, e outras parcerias, não vá a má fé da deslealdade, da vigarice, pior ainda se fôr pacoviamente premeditada, ofender - por coisa afinal pouca - a outra metade que por vezes é de velhos pergaminhos.
É que, não se sabendo logo, por boa fé, da deslealdade praticada, têm muitas vezes os tiranetes de feira que a praticam, a tentação de irem mais além, transcendendo-se na irresistível tentação de praticar o conto do vigário, preferindo à inteligência a esperteza, e tomando por estúpidos os outros, como se, à segunda, ainda convencessem. Convictos estarão que sim.
As pessoas por vezes desiludem. Mas ao menos que tais desilusões fossem suscitadas por razões de grande envergadura, como ideais ou convicções. Pelo menos a própria desilusão saía mais dignificada do que presidida por razões quase sórdidas, por mesquinhas. É que às vezes usam-se pessoas e os seus valores para viabilizar o comércio de favores e amizades.
Como em tudo na vida, quando se quer ludibirar alguém, então que se tenha alguma classe a fazê-lo. Ser-se um aldrabão é sempre melhor que um aldrabeco, um vilão que um vileco, e aí por diante, neste teatro burlesco em que alguns se andam enterrando por si mesmos, nem eles sabem quanto, curvando mesuras aos que julgam de cima e tentando pisar aqueles que na sua visão celeste do mundo, julgam abaixo.
Não avaliando o que os outros lhe fizeram por bem, retribui a dádiva com o habitual coice ingrato, inesperado todavia, porque, sendo esperto, engana bem à primeira. Mas não suficientemente inteligente para justificar a máxima de Churchill.
Claro que esta modesta crónica não tem as pretensões de se comparar às zurzidelas ímpares de Fialho de Almeida, naquele seu espantoso BARBEAR, PENTEAR.
O que é certo porém, é que, sendo o homem tão igual a si mesmo, o Fialho que li deliciadamente aos 13 anos, encontraria hoje a mesma matéria-prima do que no tempo em que viveu, contrariando assim algumas teses evolucionistas, proto-darwinianas, mais fundadas num wishful thinking do que na amarga realidade com que, apesar da boa fé depositada, estranhará por vezes o vígaro, que suscite reacções ditadas pelo direito à indignação. Mesmo que vigarice e vígaro acabem por ser coisa pouca…
Lembrando de novo Fialho, como ele, recomendo: neste ano do Coelho de 1999, para as torradas manteiga, chá para as chávenas, para os avariados mercúrio, para os genros um bom sogro, e, para a vigarice, um bom ferro.
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