A VISÃO DA LIBERDADE

 Não há pior cego que aquele que não quer ver.


Tendo o Criador, segundo se conta, moldado o barro – supõe-se que com humanas mãos – soprou-o, e dele fez nascer o primeiro dos homens, dando-lhe toda a liberdade, à excepção da árvore da sabedoria, fronteira do interdito, primeiro convite à transgressão.


Mesmo antes deste registo,s já a cegueira assolava os homens, trazendo-lhes o conceito da escuridão que os que vêm atribuem aos cegos, aos quais chamei, em crónica anterior, de transvisuais.


Imagino porém que, pela lei das compensações, além do hiper-desenvolvimento dos sentidos, subsiste em mim a convicção de que o cego vê. Vê com a mente - forma sublime de ver - procedendo à construção, possivelmente mais decantada, daquilo que constitui para si o conceito de algo sobre o qual se debruça. Não se sabe se terá forma ou côr, mas certamente é uma ideia estimulada pela sua sensorialidade hiper-desenvolvida e informada pela forma como constrói o seu mundo.


Ao cego não o perturba a luz ou a sua falta. O mundo em que vive reside no plano conceptual, da ideia, transmitida sobretudo pelas mãos, elementos identificadores e transmissores do que a mente reconstruirá.


Dizer-se que um cego - ou transvisual – é alguém que possui uma desvantagem física é produzir uma afirmação puramente técnica, consubstanciada pela maioria que vê com os olhos, e que é hegemónica por ser maioritária. Não são porém aparências da realidade aquilo que a maioria vê.


Senão, vejamos : mesmo mecânicamente, é o cérebro que faz a inversão da imagem que se forma na retina. E as imagens são registos mecânicos.


A Arte, enquanto representação, vem corroborar o que aqui se diz. Lascaux, Willendorf, a pintura chinesa, a escultura grega, e o incomensurável préstito de exemplos contidos em qualquer livro de História da Arte confirmam que a vista é um meio, e a realidade um conceito.


O cego, esse está sujeito apenas à sua visão interior. Não se conhece senão no espelho da sua mente, não conhecerá os rostos que por si quotidianamente se cruzam, nem lhes verá o sorriso ou o choro, ou ainda a máscara.


Não conhecerá as cores como nós as conhecemos. Terá delas, assim como das estações, uma ideia. Entramos assim no patamar da incomunicabilidade de mostrar ao que não vê, o que vemos, nem de podermos ver o que vê aquele que não vê.


Por tudo isso que disse, o transvisual possui o privilégio de ver de outro modo, mais decantado, mais lúcido, e, sobretudo, mais livre. Mais livre porque não está condicionado nem distraído pelo mecanismo da visão óptica.


Tal como Buda eliminou as aparências, e preferiu às deslocações as viagens, o cego está à partida imunizado do mundo de imagens e subsequentes ilusões. Reduziu ao essencial a sua relação com o exterior.


Tal leva-me a crer que, na sua forçada visão interior, ter-se-á verdadeiramente libertado.


E nós, os outros que vemos, cá nos vamos arrastando, escorreitamente sem bengala, todos de uma forma ou de outra contaminados pelas aparências, por elas toldados, deslocando-nos mais que viajando, venha o primeiro de pedra na mão e diga que não.


Assim, a nossa ideia de liberdade será necessariamente diferente daquela que o transvisual tem. Porque, para além de poder partilhar da nossa, não podemos nós partilhar da sua. O que nos empobrece.


Não espanta pois que quer Pomar quer Saramago tenham, cada qual à sua maneira, abordado o tema da cegueira.


É decisivamente universal a ideia de que a Liberdade começa interiormente, em nós, como sucede ao cego, viajante de si mesmo, mais liberto do que nós, presos pela cegueira da nossa ilusória visão.


Não pretendo fazer o elogio da cegueira, mas apenas alinhavar algumas reflexões sobre a verdadeira essência da liberdade.


Mas se tenho estado a pretender elaborar sobre conceitos, não posso deixar de aludir à mesma cegueira que, ironicamente - quando os portugueses comemoram 25 Anos de liberdade, de conquista de direitos – dizima irmãos Timorenses em sucessivos massacres, quando não há no mundo, nenhuma razão válida que justifique a perda de uma só vida humana.


No jogo dos interesses internacionais, qual lente amplificadora, o ouro negro, a mão-de-obra barata, e outros apenas aparentes e imediatos benefícios, acentuam a cegueira do desejo até aos limites do inconcebível, cegueira perversa que apenas vê formas de, não olhando a nada, buscar atingir inconfessados objectivos mascarados, mesmo apesar do testemunho televisivo.


Nada distingue os massacres de Timor aos do Kosovo. Nem os justifica porque a razão está ao mesmo nível da liberdade. É inacessível mesmo para quem recorre ao massacre.


Perdida a visão, resta a todos estes homens que manipulam mais a morte que a vida, cegarem de verdade para, de alguma forma poderem enfim ver.


Paradoxo e contradição, amargamente irónicos a toldar uma data que conferiu o princípio do direito à diferença, à escolha, legitimando o livre pensamento. Liberdade é, tão só, a nossa própria libertação.


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